terça-feira, 26 de abril de 2016

A Mãe é Green Entrevista com Ânia Araújo


O facto de sermos mães abre-nos as portas para novas amizades, conheci a Ânia nos grupos de mães que frequento e claro que os interesses em comum fazem com que as pessoas se unam o que é muito bom pois mesmo estando longe parece que a Ânia está mesmo aqui ao lado, fui acompanhando a sua mudança e admiro a forma como a conseguiu implementar de uma forma tão rápida. 

E se a entrevista desta semana é mais longa, é não menos interessante, pois acho deverás importante aprendermos com a experiência uns dos outros. E como aqui não hás censuras cada um escreve o que quer!

Nome: Ânia Araújo
Idade: 33 anos 
Formação/Profissão: Estudos Superiores em Jornalismo; auxiliar ao domicilio actualmente Mãe a tempo inteiro
Filho(a): 3 filhos de 9, 7 e 3 anos; 1 enteado de 15 anos; 1 a caminho



1.Qual é o tipo de alimentação que praticas e há quanto tempo? O que te levou a mudar?
Somos vegetarianos há um ano e meio. Os meus filhos comem esporadicamente ovos (código 0, biológicos) e iogurtes biológicos. Também esporadicamente dois deles comem queijo da região de França onde vivemos (Savoie), que depois de me informar soube que têm uma politica muito rigorosa com o modo de criação dos animais. As vacas não são inseminadas, vivem nas montanhas e não são expostas às maquinas para extracção do leite. São os produtores que vão até elas com uma maquina num carro próprio para extrair o leite.
Ao início, depois de tomar consciência da industria por detrás dos produtos animais cortei com tudo radicalmente. Foi demasiado pesado e um choque emocional enorme saber até onde o ser humano consegue ir por dinheiro. Perceber o desrespeito pela vida, pela saúde de quem come e de quem é comido. Depois fui conhecendo outras realidades por vários pedidos dos meus filhos.
 
2.O teu marido apoiou  a decisão de mudança? 

Cá em casa foi uma decisão tomada a dois, e depois com todos, mas com um marido que vem das moelas e da mão de vaca, de um bom bife e de amor ao bacalhau com natas. Tendo ele uma profissão que o obriga a estar a semana toda fora, não falamos sobre o assunto, mas calculei e respeitei que ele optasse pelos hábitos antigos. Foi uma surpresa perceber e saber que por opção ele continuou a seguir a decisão da mudança.
Quando são refeições em restaurantes e que não ha opção pois a refeição paga é a que fizer parte do menu do dia, ele come e ninguém dramatiza. Sei que é uma questão muitas vezes delicada de viver e de gerir mas a verdade é que nem todos estamos prontos na mesma altura. Dar espaço e tempo, informar sempre do que vamos descobrindo e paciência. Tempo, paciência e compaixão são os ingredientes que faltam tantas vezes. Entre humanos e animais. 


3. Qual foi a reacção das crianças relativamente à mudança? Reagiram todos da mesma forma?
O meu filho mais velho, Nelson, ficou radiante. Alias, tudo começou com ele que desde os 4 anos que recusava comer carne. Sempre foi uma criança bastante sensivel e os animais sempre foram o grande amor. Para ele nao faz sentido proteger com unhas e dentes e acariciar gatos e cães e comer vacas e galinhas. Porque é que uns fazem parte da cadeia alimentar e outros não se são todos feitos da mesma matéria e energia? Isto deu-me muito que pensar. E depois o tal choque com a nossa realidade que eu estava longe de imaginar…  
O meu segundo, o António, aceitou bastante bem e sempre comeu as opções que passamos a ter mas diz muitas vezes que vai comer carne na casa dele. Eu já lhe expliquei que assim como nunca obriguei um filho meu a comer carne, nunca vou obrigar um a não comer, mas que não gosto do que vi, que não lhe quero mostrar ainda as imagens, e que sempre que haja uma ocasião onde ele possa comer carne ele que assim o decida. A verdade é que em casa de vizinhos por exemplo, se estivermos todos ele não come mas se ele for a casa de um amigo almoçar como já aconteceu, come. E eu aprendi que a minha convicção não pode ser uma obrigação. Mesmo que saiba que é uma questão de saúde, de valores de vida, sinto que nunca sera por imposição que o farei com os meus filhos. Cada um chegara à conclusão que lhe fizer sentido.
Por isso respeito quando o Nelson me pede ovos ou o António me pede iogurtes. Compro os biológicos, não vou ao fundo da questão da exploração animal por enquanto e aprendo a viver com a consciência de que são produtos de animais respeitados.


4.Porque é para ti importante uma alimentação vegetariana? 
Ao inicio começou mesmo por ser uma questão de empatia com o que os animais sofrem para servirem as necessidades do suposto ser superior e racional. O que ja vi e li e sei deixa muito a desejar quer ao superior, quer ao racional. Mas depois começamos e perceber que é a ponta do iceberg e que ha tantos factores envolvidos e um deles é a saúde. Não tem logica nenhuma que se entre numa espiral onde, para um mercado e toda uma industria de esquemas e lobbys exista, se tenha que provocar tanta crueldade e sofrimento a seres vivos para depois o efeito ser altamente negativo ao consumidor final. é toda uma realidade que eu não quero ser cúmplice.  E não é exagero meu ou da comunidade de pessoas que ja têm esta consciência, é mesmo uma crua realidade de todos os dias. Eu também tive longe de imaginar que seria possível durante 30 anos, e ainda por cima crescendo numa sociedade que se auto proclama de desenvolvida. 

5.Como consequência da alteração de alimentação passaste também por um processo de perda de peso.  O que é diferente na alimentação vegetariana que levou a que conseguisses emagrecer?
Eu não acredito em coincidências e a verdade é que durante anos da minha vida tentei perder peso muitas vezes e conseguia se realmente passasse fome e comesse a chamada dieta de hospital. Com o vegetarianismo foi ao mesmo tempo uma surpresa e uma descoberta fantástica! Logo no primeiro mês que deixamos carnes e peixe e eu deixei logo os ovos e o leite (o queijo é o que custa mais, a meu ver, para viciados no mesmo como eu era), e perdi logo 7 kg de repente! Percebi que o meu problema desde sempre de ser muito presa de intestinos não tinha nada a ver com falta de verduras (sempre me tinha intrigado como é que 2 kiwis bem maduros ao pequeno almoço, um café bem forte, bróculos e espinafres ao jantar não eram suficientes a maior parte das vezes para ter um transito intestinal saudável…), mas sim com os lacticínios.
Comecei a ler sobre os hidratos de carbono e sobre os açucares e percebi que tudo o que seja cereais ou açúcar refinado esta ligado a imensos sintomas que eu sempre tive: inchaço constante na zona abdominal, sensação de cansaço e uma inércia que queremos combater mas que parece que não temos força. Sentia falta de energia, tinha imensas borbulhas na cara, tinha anemias com frequência, principalmente “naquela” bela altura do mês. Mais uma vez seria muita coincidência que desde que sou vegetariana que tenho muito menos fluxo e até agora não voltei a ter anemia.
As opções são simples: cereais integrais e açúcar mascavado ou ainda melhor usar tâmaras para adoçar bolos e bolachas.
Sempre me considerei uma pessoa bem informada mas durante esta descoberta percebi que não conhecia minimamente o meu corpo, o meu metabolismo. Vivemos numa sociedade atual onde não somos ensinados a ouvir o nosso corpo, a conhecê-lo e a adequar a alimentação ao nosso metabolismo. Seguimos a maioria e os hábitos que sempre conhecemos e assim passa de geração em geração. Na minha opinião é cada vez mais urgente perceber que precisamos de tempo para nos conhecermos, não so para o nosso desenvolvimento espiritual mas também para a nossa saúde física. 
E o mesmo para os nossos filhos, conhecer o metabolismo deles e ensinar a saber identificar sintomas e reagir aos mesmos. é algo que faço muito com eles, e eles até já sabem quando estão a precisar de reforçar o ferro ou a vitamina D.

6.Pela primeira vez estas a passar por uma gravidez sendo vegetariana. Notas diferenças?
Noto! Como muito melhor nesta gravidez que é, no meu caso, o que acontece desde que somos vegetarianos. Sempre fiz sopas em casa e sempre tive atenção aos legumes mas não éramos grandes fãs de alimentos que hoje fazem parte das nossas refeições normais: lentilhas, grão, beterraba, batata doce, cuscus, boulgur, e todo o universo de sementes que a grande maioria das pessoas não tem noção da riqueza nutricional que nos da. Ha sempre o argumento do preço, por exemplo, das amêndoas, do caju, da chia, da quinoa. Eu também não me posso permitir a um consumo quotidiano ou regular, mas até agora sei que o que vou consumindo é o suficiente. Pelo menos tenho as analises que o comprovam e um bebé até agora no percentil 70!

7.Sentes algum preconceito quando dizes que és vegetariana ou que praticas uma alimentação saudável?
Uma vez quando me perguntaram como é que tinha conseguido perder tanto peso (perdi 19 kg em 6 meses), respondi que tinha começado a comer como deve ser. Ao meu lado estava uma querida amiga que me respondeu logo a seguir, com carinho “começaste a comer diferente. Eu não sou vegetariana e sou bastante saudavel”. E eu não a posso desmentir que é uma pessoa que tem bastantes cuidados com a saude, faz analises regularmente e pode afirmar que é saudável. Por isso resolvi também eu não ser preconceituosa ao ponto de afirmar que a minha opção é A opção saudável, embora já haja bastantes estudos que o comprovem e é so pesquisar um pouco sobre o que uma alimentação omnívora consome na sua maioria para perceber que não pode fazer bem à saúde. 
Não sinto propriamente preconceito mas alguma curiosidade. Quando me vêm com 3 filhos cheios de energia e vitalidade e boa cor com a opção que vivemos, querem saber sempre mais e exemplos do que comemos. Noto que há muitas pessoas que vêm sentido na opção mas que confessam que não arriscam por… medo. Medo das carências. 
Eu posso confessar que tive esse medo, alias acho que é inevitável sentir ao inicio quando nos lançamos em refeições que nunca antes fizemos, em começar a ter atenção a pormenores que nunca tivemos, mas é tudo um tempo de descoberta e adaptação, confiar, pesquisar, deixar de ser a parte passiva e passar a ser a parte activa do que comemos, do que somos.
Isso implica deitar muitos mitos por terra, enfrentar muitos supostos conhecedores da matéria, ser visto como um desafiador da lei ahahah. Mas compensa, quando confiamos no que somos compensa.

8. Como é a alimentação do teu filho/filha na escola? Existe opção vegetariana?
Felizmente eles podem vir comer a casa todos os dias porque na escola não tem opção e quando me informei sobre a questão a alternativa era… nenhuma!!! Teria de ir ao médico de familia e ver que procedimentos tomar. 
Mas num pais onde, nas escolas, não se serve carne de porco por respeito à comunidade árabe, e onde as carnes são halal pela mesma razão, onde se serve todos os legumes e frutas bio por uma questão de saúde, penso que o próximo passo sera a consciencialização para as famílias que tenham esta opção e se crie essa opção em todas as escolas. Ou no mínimo que comecem a permitir que essas crianças possam levar pelo menos o acompanhamento de casa…

9.Na página do Facebook a Arca do Necas vais partilhando a tua caminhada e da tua família, o que te levou a criá-la? 
Duas razões: homenagear o meu filhote por esta mudança e continuar a missão que ele me despertou: consciencializar quem nos visita para a realidade que existe, e que eu desconhecia por completo. Partilho artigos e vídeos, estudos e claro as receitas que vou inventando.
Fico muito grata quando recebo comentários a agradecer a partilha de receitas que ajudam num começo de mudança, ou que ajudam a perceber que até é bastante simples de comer veggie. 
Ao inicio criei o blog Arca do Necas mas na altura não tinha computador, fazia tudo a partir do telemóvel e não era nada pratico para atualizar. No facebook é mais rápido e imediato e dai que me tenha dedicado à pagina. Mas para encontrar receitas não é nada pratico confesso… tenho andado sem tempo por questões pessoais mas conto voltar em força assim que a estivermos a navegar em águas mais calmas.

 

10.Quais os 5 ingredientes essenciais que tens de ter sempre em casa? 
Leguminosas (lentilhas, grão e todo o tipo de feijão), a maior variedade possível de legumes, fruta, tofu (altamente rico em proteina) e aveia (com que faço o leite). Tenho de acrescentar os cereais, quer em forma de massas, arroz, cuscus, boulgur para poder junto com as leguminosas e os vegetais obter a proteína completa. 

11. Que sugestão de receitas nos podes dar que toda a gente adora?
Pequeno-almoço: Um belo pudim matinal feito com leite de aveia (caseiro), sementes de chia e fruta à escolha. Preparado no dia anterior e pronto a comer de manhã!
Almoço/Jantar: Um arroz de ervilhas com uns hambúrgueres de feijão encarnado, beterraba, cogumelos, e couscous integral, acompanhado com salada de pepino e agrião. Um esparguete à bolonheggie, feita com lentilhas, polpa de tomate, talos de bróculos e espinafres, sementes de papoila e levedura de cerveja.
Snack/Lanche: uma peça de fruta (ou se puderem um bom batido de fruta e legumes) e uma fatia de bolo feito em casa (centenas de exemplos no blog mais completo de sempre: Universo dos Alimentos). 







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